segunda-feira, 30 de março de 2026

A Seara Da Inconsolação

 


A Seara da Inconsolação



Na minha terra há uma seara
Doce e luminara 
Luzidias espigas douradas 
Resplandeciam abrigadas
Resguardadas no suave fulgor
Assim tecida de sabor e amor


Brisas acariciavam corolas
Sibilavam canções melodiosas
Embalavam suaves danças
Ondulavam doçuras plenas
Plenas de cores maviosas
Assim me iam horas luminosas


Aos poucos o siroco ardente
Em silêncio descendente
Estiolou- me a mente
Languesceu a semente
Sem rega providente
Tornou-se ressequente


Cerzindo mansamente
Um deserto murchante
De areal desolante
Ceifando asperamente 
Restos de trigo emergente
No pó quente e dormente


No silêncio desta aridez
A alma perde em nudez
Qual vulto em rigidez
Já em total pequenez
Mas com um tom de frigidez
Minando a insensidez

 
Ante dorido canto
Cai incontido pranto
Toca- me em quebranto 
No âmago, jaz pântano 
Invernoso e insano 
No hiato humano
 

Que nos sustém 
Da ferida de outrem
Da nossa ninguém
Aqui, a sombra vai e vem
Sempre no frio além 
Sou dela refém 


De muitos, o desdém
Gestos sempre aquém
Inexiste alguém
Que consiga decifrar
Tão fundo salgar
Só se dá a quem já doeu

FEV/2026







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