A Seara da Inconsolação
Na minha terra há uma seara
Doce e luminara
Luzidias espigas douradas
Resplandeciam abrigadas
Resguardadas no suave fulgor
Assim tecida de sabor e amor
Brisas acariciavam corolas
Sibilavam canções melodiosas
Embalavam suaves danças
Ondulavam doçuras plenas
Plenas de cores maviosas
Assim me iam horas luminosas
Aos poucos o siroco ardente
Em silêncio descendente
Estiolou- me a mente
Languesceu a semente
Sem rega providente
Tornou-se ressequente
Cerzindo mansamente
Um deserto murchante
De areal desolante
Ceifando asperamente
Restos de trigo emergente
No pó quente e dormente
No silêncio desta aridez
A alma perde em nudez
Qual vulto em rigidez
Já em total pequenez
Mas com um tom de frigidez
Minando a insensidez
Ante dorido canto
Cai incontido pranto
Toca- me em quebranto
No âmago, jaz pântano
Invernoso e insano
No hiato humano
Que nos sustém
Da ferida de outrem
Da nossa ninguém
Aqui, a sombra vai e vem
Sempre no frio além
Sou dela refém
De muitos, o desdém
Gestos sempre aquém
Inexiste alguém
Que consiga decifrar
Tão fundo salgar
Só se dá a quem já doeu
FEV/2026
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